Aconteceu na localidade de Piranhas, em Alagoas, às margens
do rio São Francisco. Ali moravam o capitão Lindolfo Ezequiel e sua mulher,
Sabô. O capitão era famoso por sua atividade de pistoleiro e por ser casado com
a mulher mais desejada da região, o que lhe exigia vigor físico e o exercício
da fama de matador.
Certo dia, chegou ao lugar Ubaldo Capadócio, caboclo alto e de boa estampa que
se destacava nas artes da literatura e da música popular: era autor de folhetos
de cordel e, num forrobodó, tocava harmônica como ninguém. O poeta era
requisitado nos quatro cantos para animar batizados, casamentos e até velórios.
Além disso, era dado ao galanteio: arrebatava corações e mantinha duas
famílias, uma na Bahia, outra em Sergipe, tinha três esposas e nove filhos.
Em Piranhas, Ubaldo Capadócio caiu de amores pela mulher de Lindolfo Ezequiel.
Desavisado, foi parar na cama de Sabô. E o capitão, que estava de viagem,
voltou antes da hora. Para se safar dessa enrascada e virar tema de relato
afamado, Ubaldo Capadócio precisou contar com a presença de numerosas
testemunhas, muitos pássaros e uma ajudinha da Providência.
Em O milagre dos pássaros, Jorge Amado transforma uma história
consagrada oralmente em matéria literária. Narrativa breve, entre o conto e a
novela, o texto é um episódio de traição e desonra típico da tradição popular
do sertão nordestino.
Com o humor e a habilidade narrativa que lhe são próprios, o escritor recupera
e eterniza esse caso desabusado que ganhou a boca do povo e correu o sertão.
